Podia fazer-te um poema
que nascesse dos meus lábios
dessa pontada no meu seio esquerdo
do meu peito cumulado
Podia fazer-te um poema
que me saísse dos olhos
molhados
quando veem os teus
dessa saudade caduca
que me deu
Podia fazer-te um poema
centelha
que brilhasse feito vela
no breu
Podia fazer-te um poema
exato em tudo
exceto no jeito
na sintaxe estreita
do imperfeito
Podia fazer-te um poema
alado
que logo perdesse as asas
e ganhasse o chão
sujando-se de grão em grão
Podia fazer-te um poema
sangrento
e sair de cena
por um momento
Mas o que posso
é fazer-te um poema
que reza
pede a bênção
e se entrega
inteiro
nas tuas mãos