Criação

Uma voz antiga
grita o indizível
o vento leva
o verbo
intraduzível
já não há muros
nem um viés sequer
tudo refulge
tudo é

Imperfeito

Podia fazer-te um poema
que nascesse dos meus lábios
dessa pontada no meu seio esquerdo
do meu peito cumulado

Podia fazer-te um poema
que me saísse dos olhos
molhados
quando veem os teus
dessa saudade caduca
que me deu

Podia fazer-te um poema
centelha
que brilhasse feito vela
no breu

Podia fazer-te um poema
exato em tudo
exceto no jeito
na sintaxe estreita
do imperfeito

Podia fazer-te um poema
alado
que logo perdesse as asas
e ganhasse o chão
sujando-se de grão em grão

Podia fazer-te um poema
sangrento
e sair de cena
por um momento

Mas o que posso
é fazer-te um poema
que reza
pede a bênção
e se entrega
inteiro
nas tuas mãos

Pedido

Estrela
da vida
inteira
traz-me o sono
dos justos
o ocaso
dos fusos
o amanhã
do hoje
os nomes
não ditos
os sonhos
interditos
os calores
fugazes
os homens
audazes
as luzes
no porto
o céu
dos planaltos
o som
dos
arautos
o caos
inconcluso
o gesto
difuso
o amor
corpóreo
o odor
etéreo
a dor
efêmera
o gozo
de dois
o silêncio
depois

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.