Criação

Uma voz antiga
grita o indizível
o vento leva
o verbo
intraduzível
já não há muros
nem um viés sequer
tudo refulge
tudo é

Imperfeito

Podia fazer-te um poema
que nascesse dos meus lábios
dessa pontada no meu seio esquerdo
do meu peito cumulado

Podia fazer-te um poema
que me saísse dos olhos
molhados
quando veem os teus
dessa saudade caduca
que me deu

Podia fazer-te um poema
centelha
que brilhasse feito vela
no breu

Podia fazer-te um poema
exato em tudo
exceto no jeito
na sintaxe estreita
do imperfeito

Podia fazer-te um poema
alado
que logo perdesse as asas
e ganhasse o chão
sujando-se de grão em grão

Podia fazer-te um poema
sangrento
e sair de cena
por um momento

Mas o que posso
é fazer-te um poema
que reza
pede a bênção
e se entrega
inteiro
nas tuas mãos

Pedido

Estrela
da vida
inteira
traz-me o sono
dos justos
o ocaso
dos fusos
o amanhã
do hoje
os nomes
não ditos
os sonhos
interditos
os calores
fugazes
os homens
audazes
as luzes
no porto
o céu
dos planaltos
o som
dos
arautos
o caos
inconcluso
o gesto
difuso
o amor
corpóreo
o odor
etéreo
a dor
efêmera
o gozo
de dois
o silêncio
depois

Inteira

O que dizer de mim,

a não ser que sou inteira,

que dou inteira minha mão a ti,

inclusive nas horas meias?

O que dizer de mim,

a não ser que sou inteira,

nas insônias, nas incertezas,

carências, carícias, surpresas,

solidões extremas e êxtases?

Sou inteira sim, é o que sou.

da cabeça aos pés,

pelo corpo e alma afora,

adentro

pela noite e no meio do dia.

Gente inteira não esvazia.

Sendo inteira,

sou assim.

Mesmo não cabendo em mim.

Móbile

Os dias passando
céleres
as horas correndo
móbiles
o teto do quarto oscila

nas luzes inter

mi ten tes
do tempo

Mim

Quando mergulho no sono
mergulho em mim
e tenho medo
de mergulhar
tanto assim

Pés

Às vezes


Uma brisa soprava do lago,

espelho de luzes.

Do céu escuro brotavam cores,

das mesas dos bares subiam vozes.

A gente precisa se sentir viva,

nem que seja

às vezes…

Estou

Tenho sede de água limpa

de fonte boa

de verbo livre

de encontros todos,

eternos retornos,

de poesia poesia.

Entre perto e longe.

Estou.

Não

Não sou poeta,

poetisa tampouco.

Meu desejo de ser humana

percute no meu estômago.

Como um soco.

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